quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Usando a tradução de Haroldo Dutra Dias, comparando os 4 Evangelho.

 




Relatório de Análise Sincronizada: A Natureza das Passagens Paralelas nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João na Tradução de Haroldo Dutra Dias



1. Introdução: O Problema da "Identidade" Textual e a Reinterpretação da Consulta


A presente análise técnica se dedica ao exame das relações literárias entre os quatro evangelhos canônicos – Mateus, Marcos, Lucas e João – a partir da estrutura e do conteúdo apresentados na tradução de Haroldo Dutra Dias. A solicitação original do estudo pedia a identificação de "passagens idênticas" em todos os quatro evangelhos. No entanto, uma leitura atenta do material de pesquisa fornecido revela que a busca por uma identidade textual literal seria uma empreitada inviável. A introdução da obra informa que os manuscritos gregos originais não continham capítulos, versículos ou mesmo a separação entre palavras, tornando a noção de "identidade" de trechos um anacronismo editorial moderno.1

A abordagem deste relatório, portanto, reinterpreta a busca por passagens "idênticas" como uma investigação das perícopes paralelas, ou seja, eventos narrativos e ditos de Jesus que aparecem em mais de um evangelho. O material de pesquisa, por si só, oferece uma estrutura ideal para essa análise, pois os títulos das perícopes e as notas de rodapé indicam referências cruzadas que conectam as narrativas entre os textos.1 Este estudo emprega a metodologia da tradução "source oriented", conforme descrita pelo próprio tradutor, cujo objetivo é "transportar o leitor ao cenário no qual Jesus viveu, agiu e ensinou".1

O método de análise se fundamenta na decisão do tradutor de Haroldo Dutra Dias de revisar sistematicamente os títulos das perícopes, buscando "a máxima neutralidade" e um "caráter estritamente textual".1 A lista de passagens paralelas em anexo (ver seção 3) é um reflexo direto dessa escolha metodológica. Ao adotar títulos como "A unção em Betânia" em vez de uma interpretação teológica como "a unção de Jesus", a tradução fornece um ponto de partida objetivo para a comparação. Essa abordagem nos permite analisar as perícopes não a partir de uma perspectiva dogmática pré-definida, mas da sua função como relatos textuais que compartilham um tema, evento ou dito em comum. O presente relatório, ao seguir essa mesma premissa, busca demonstrar como a aparente "identidade" de eventos nos evangelhos é, na realidade, um fenômeno multifacetado, onde cada evangelista seleciona, adapta e contextualiza o material para seus próprios fins literários e teológicos.


2. Fundamentação Teológica e Literária dos Evangelhos


A análise das passagens paralelas revela uma complexa rede de inter-relações literárias entre os evangelhos. A vasta maioria das referências cruzadas documentadas (cerca de 80%) ocorre entre Mateus, Marcos e Lucas.1 Este fenômeno é reconhecido na crítica bíblica como o Problema Sinótico. A estrutura do sumário da obra de Haroldo Dutra Dias sugere fortemente a hipótese de dependência literária, onde os evangelistas posteriores teriam usado obras anteriores como fonte para suas narrativas. A ordem dos eventos, como o "Ministério do precursor," a "Tentação no deserto," e o "Início da proclamação do reino pela Galileia," é consistente nos três evangelhos, indicando a provável existência de uma fonte narrativa comum.1

Uma observação notável é a diferença na extensão de certas perícopes. Por exemplo, o sumário lista "A tentação no deserto" em Mateus (Capítulo 4) e Lucas (Capítulo 4), mas em Marcos, a passagem correspondente é significativamente mais curta, aparecendo no Capítulo 1.1 Nos evangelhos de Mateus e Lucas, a narrativa inclui o diálogo detalhado entre Jesus e o diabo, citando escrituras. Em Marcos, o relato é conciso, mencionando apenas que Jesus "estava no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás" e "estava com as feras, e os anjos começaram a servi-lo".1 A brevidade do relato de Marcos em comparação com a riqueza de detalhes em Mateus e Lucas é uma evidência de que os dois últimos evangelistas podem ter expandido um esqueleto narrativo fornecido por Marcos, incorporando material de outra fonte de ditos de Jesus.

A relação de João com os evangelhos sinóticos é de natureza distinta. O sumário do documento demonstra que João compartilha pouquíssimas narrativas com os demais, e quando o faz, são eventos de grande importância, como a "Primeira multiplicação dos pães" (Mt 14, Mc 6, Lc 9, Jo 6) e a narrativa da paixão e sepultamento.1 Essa divergência mostra que a "identidade" de eventos nos evangelhos não é um resultado passivo da reportagem, mas um processo ativo de seleção e omissão que reflete as agendas teológicas e literárias de cada autor. A ausência de uma perícope em um evangelho é, por vezes, tão reveladora quanto sua presença. Por exemplo, a história da "Unção em Betânia" é relatada em Mateus (Capítulo 26), Marcos (Capítulo 14) e João (Capítulo 12), mas está ausente em Lucas.1 Essa omissão deliberada em Lucas, combinada com a inclusão de histórias exclusivas em João, como a mulher samaritana (Jo 4:4-26) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11:1-44), ilustra que cada evangelista construiu uma narrativa única para um propósito específico, mesmo quando trabalhando com material semelhante.


3. Tabela de Concordância de Passagens Paralelas nos Evangelhos


A tabela a seguir compila todas as passagens com referências cruzadas identificadas no sumário e nas notas de rodapé do documento. A lista exaustiva foi extraída e validada a partir das informações fornecidas, complementando as referências citadas no sumário com os versículos específicos contidos nas notas.

Título da Passagem

Mateus

Marcos

Lucas

João

1

Ministério do precursor, Descrição do Cristo, João mergulha Jesus no Jordão

3:1-6, 3:13-17

1:1-6, 1:7-8, 1:9-11

3:1-6, 3:7-10, 3:21-23

1:24-26

2

A tentação no deserto

4:1-11

1:12-13

4:1-13

-

3

Início da proclamação do reino pela Galileia

4:12-17

1:14-15

4:14-15

-

4

Os primeiros quatro discípulos

4:18-22

1:16-20

5:1-11

-

5

Cura de um leproso

8:1-4

1:40-45

5:12-16

-

6

Cura do servo do centurião

8:5-13

-

7:1-10

4:46-54

7

Cura da sogra de Pedro

8:14-15

1:29-31

4:38-39

-

8

A tempestade acalmada

8:23-27

4:35-41

8:22-25

-

9

O endaimoniado geraseno

8:28-34

5:1-20

8:26-39

-

10

Cura de um paralítico

9:1-8

2:1-12

5:17-26

-

11

Chamado de Mateus

9:9-13

2:13-17

5:27-32

-

12

Refeição com publicanos e pecadores, acerca do jejum

9:10-17

2:15-22

5:29-39

-

13

Ressurreição da filha de Jairo e cura da mulher com fluxo de sangue

9:18-26

5:21-43

8:40-56

-

14

Missão dos doze

10:1-15

6:7-13

9:1-6, 10:1-12

-

15

Indagações de João Batista e testemunho de Jesus a seu respeito

11:2-19

-

7:18-35

-

16

Espigas arrancadas no sábado

12:1-8

2:23-28

6:1-5

-

17

Cura do homem com as mãos atrofiadas

12:9-14

3:1-6

6:6-11

-

18

Jesus e Beelzebul

12:22-37

3:20-30

11:14-23

-

19

A verdadeira família de Jesus

12:46-50

3:31-35

8:19-21

-

20

Parábola do semeador

13:1-9

4:1-9

8:4-8

-

21

Explicação da parábola do semeador

13:10-23

4:10-20

8:9-15

-

22

Parábola do grão de mostarda

13:31-32

4:30-32

13:18-19

-

23

Visita a Nazaré

13:53-58

6:1-6

4:16-30

-

24

Herodes

14:1-12

6:14-29

9:7-9

-

25

Primeira multiplicação dos pães

14:13-21

6:30-44

9:10-17

6:1-15

26

Jesus caminha sobre as águas

14:22-33

6:45-52

-

6:16-21

27

Curas em Genesaré

14:34-36

6:53-56

-

-

28

Tradição dos fariseus

15:1-20

7:1-23

-

-

29

Cura da filha de uma cananeia

15:21-28

7:24-30

-

-

30

Segunda multiplicação dos pães

15:32-39

8:1-10

-

-

31

Sinal do céu

16:1-4

8:11-13

-

-

32

O fermento dos fariseus e saduceus

16:5-12

8:14-21

12:1-12

-

33

A revelação de Pedro

16:13-20

8:27-30

9:18-21

-

34

O anúncio do calvário

16:21-23

8:31-33

9:22

-

35

Requisitos para seguir Jesus

16:24-28

8:34-9:1

9:23-27, 14:25-27

-

36

A transfiguração

17:1-8

9:2-8

9:28-36

-

37

A vinda de Elias

17:9-13

9:9-13

-

-

38

O endaimoniado epilético

17:14-21

9:14-29

9:37-43

-

39

Segunda previsão do calvário

17:22-23

9:30-32

9:43-45

-

40

Pequenos e grandes no reino dos céus

18:1-5

9:33-37

9:46-48

-

41

O escândalo

18:6-9

9:42-50

-

-

42

Ensino sobre o divórcio

19:1-12

10:1-12

-

-

43

As crianças e o reino dos céus

19:13-15

10:13-16

18:15-17

-

44

O jovem rico, as posses e o reino dos céus

19:16-30

10:17-31

18:18-30

-

45

Terceira previsão do calvário

20:17-19

10:32-34

18:31-34

-

46

Pedido dos filhos de Zebedeu

20:20-28

10:35-45

-

-

47

O grande servidor

20:25-28

10:42-45

22:24-27

-

48

O cego de Jericó

20:29-34

10:46-52

-

-

49

Entrada do Messias em Jerusalém

21:1-11

11:1-11

19:28-44

12:12-19

50

Expulsão dos vendilhões do templo

21:12-17

11:15-19

19:45-48

2:13-22

51

A figueira estéril

21:18-22

11:12-14, 11:20-25

-

-

52

A autoridade de Jesus

21:23-27

11:27-33

20:1-8

-

53

Parábola dos vinhateiros homicidas

21:33-46

12:1-12

20:9-19

-

54

O tributo a César

22:15-22

12:13-17

20:20-26

-

55

A ressurreição dos mortos

22:23-33

12:18-27

20:27-40

-

56

O maior mandamento

22:34-40

12:28-34

10:25-28

-

57

O Messias, filho e Senhor de Davi

22:41-46

12:35-37

20:41-44

-

58

Ensino e prática

23:1-39

12:38-40

20:45-47

-

59

O óbolo da viúva

-

12:41-44

21:1-4

-

60

Grandes tribulações, Parábola da figueira, Tempo de vigilância

24:1-51

13:1-37

21:5-36

-

61

Conspiração para matar Jesus

26:1-5

14:1-2

22:1-2

11:45-53

62

A unção em Betânia

26:6-13

14:3-9

-

12:1-8

63

Judas negocia a entrega de Jesus

26:14-16

14:10-11

22:3-6

-

64

Os preparativos para a Páscoa

26:17-19

14:12-16

22:7-13

-

65

A última ceia pascal

26:20-29

14:17-25

22:14-23

13:21-30

66

A predição da negação de Pedro

26:30-35

14:26-31

22:31-34

13:36-38

67

No Getsêmani

26:36-46

14:32-42

22:39-46

-

68

A prisão de Jesus

26:47-56

14:43-52

22:47-53

18:1-11

69

Jesus diante do Sinédrio

26:57-68

14:53-65

22:66-71

18:19-24

70

As três negações de Pedro

26:69-75

14:66-72

22:54-62

18:15-18, 18:25-27

71

Condução de Jesus ao governador, Morte de Judas, Jesus diante de Pilatos

27:1-26

15:1-15

23:1-25

18:28-19:16

72

Martírio e crucificação

27:27-44

15:20-32

23:26-43

19:17-27

73

Morte de Jesus

27:45-56

15:33-41

23:44-49

19:28-37

74

O sepultamento

27:57-61

15:42-47

23:50-56

19:38-42

75

As mulheres visitam o túmulo

28:1-10

16:1-8

24:1-10

20:1-10

76

Aparição de Jesus na Galileia

28:16-20

16:9-20

24:13-53

20:11-23, 21:1-25


4. Análise de Casos de Estudo Selecionados


A tabela anterior nos permite aprofundar a análise de algumas passagens específicas para ilustrar a natureza da sua "identidade" e as complexidades subjacentes. A tradução de Haroldo Dutra Dias, com suas notas de rodapé, oferece um ferramental para essa exploração.


4.1. O Batismo ("Mergulho") de Jesus: A Análise Linguística Profunda


A perícope do batismo de Jesus (Mt 3:13-17; Mc 1:9-11; Lc 3:21-23) é uma das narrativas centrais compartilhadas pelos evangelhos sinóticos. A tradução de Haroldo Dutra Dias opta por uma escolha lexical precisa ao traduzir o verbo grego bapto como "mergulhar, imergir" e o substantivo baptismo como "mergulho, imersão", em vez de utilizar o termo sacramental "batismo".1 Essa decisão não é meramente estilística; ela é um reflexo da metodologia "source oriented" do tradutor, que busca remover as camadas de interpretação teológica que se acumularam ao longo de vinte séculos.

A nota de rodapé explica que a palavra baptismo evoca, para o leitor moderno, o sacramento cristão do batismo, uma teologia e uma prática que não existiam da mesma forma na época da redação dos evangelhos.1 Ao "escavar" e "recuperar o frescor original do termo", o tradutor convida o leitor a considerar o evento no seu contexto cultural e religioso do primeiro século, onde a prática era vista como um ritual de purificação. A "identidade" da história nos evangelhos sinóticos, portanto, é um fenômeno que se desdobra em complexidade quando se analisa a fundo o significado das palavras. A tradução nos mostra que a semelhança narrativa esconde uma potencial diferença de significado que foi obscurecida pela tradição.


4.2. A Multiplicação dos Pães: Convergência Narrativa e Divergência Teológica


Este é um dos poucos milagres narrativos que aparecem em todos os quatro evangelhos (Mt 14, Mc 6, Lc 9, Jo 6).1 Embora a essência do evento seja a mesma – Jesus alimenta uma multidão com poucos pães e peixes –, a função teológica da narrativa varia significativamente entre os evangelistas. Nos sinóticos, o milagre da multiplicação dos pães é frequentemente interpretado como um prenúncio da Última Ceia ou um milagre que demonstra a compaixão de Jesus pelas multidões. No entanto, no Evangelho de João, a perícope funciona como uma introdução ao discurso do "pão da vida" no Capítulo 6.1

Essa diferença de abordagem demonstra que a "identidade" de um evento não garante uma identidade de propósito. João, com sua agenda teológica de apresentar Jesus como o "Logos" divino, utiliza o milagre como uma plataforma para um aprofundamento metafórico e teológico. O evento não é apenas um milagre de compaixão, mas uma revelação da identidade de Jesus como a fonte da vida eterna. A narrativa, embora a mesma em seus contornos, se torna um meio para um fim distinto, evidenciando a liberdade literária e o propósito singular de cada evangelista, mesmo ao se basear em um relato comum.


4.3. A Paixão e o Sepultamento: O Núcleo Irredutível do Testemunho


A narrativa da paixão e do sepultamento de Jesus, incluindo detalhes como a unção em Betânia, a traição de Judas, a negação de Pedro, o julgamento por Pilatos, e o sepultamento por José de Arimatéia, apresenta uma notável consistência nos quatro evangelhos.1 Essa convergência é ainda mais impressionante quando se considera o Evangelho de João, que em muitas outras seções diverge substancialmente dos sinóticos. A "identidade" dessas passagens sugere que a morte e o sepultamento de Jesus constituíam o núcleo mais fixo e inalterável da tradição oral e escrita.

O fato de os evangelistas terem relatado esses eventos com pouca variação na substância narrativa indica que eles eram considerados eventos fundamentais e inegociáveis para a fé primitiva. A convergência da narrativa da paixão em todos os evangelhos é, portanto, uma evidência da centralidade e da antiguidade dessa tradição. A irredutibilidade desse testemunho serve como um poderoso contraponto à diversidade encontrada em outros lugares, revelando que, embora os evangelistas tivessem liberdade para adaptar a forma, o conteúdo central do kerygma (a proclamação da fé) permaneceu coeso e unificado.


5. Conclusão: A Unidade do Testemunho Evangélico na Diversidade Literária


A análise das passagens paralelas nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, baseada na tradução de Haroldo Dutra Dias, demonstra que a "identidade" textual é um fenômeno complexo e multifacetado. Longe de ser uma questão de literalidade, as perícopes paralelas revelam uma unidade temática e narrativa em meio a uma rica diversidade literária. A maior parte das semelhanças se concentra nos evangelhos sinóticos, corroborando as teorias de dependência literária e fontes comuns. O Evangelho de João, por outro lado, mostra uma relação mais distante, compartilhando apenas eventos de importância teológica inquestionável, o que sublinha sua agenda única.

A forma como cada evangelista molda o material comum para diferentes propósitos teológicos é a principal conclusão deste estudo. As variações na extensão das narrativas, as omissões estratégicas de certas histórias e a inserção de discursos únicos ilustram que a diversidade não é um sinal de contradição, mas de um testemunho enriquecedor e multifacetado da vida e dos ensinamentos de Jesus.

A tradução de Haroldo Dutra Dias é uma ferramenta valiosa para este tipo de análise. A sua metodologia de neutralidade nos títulos e a riqueza das notas de rodapé permitem ao leitor-pesquisador discernir as complexas relações literárias e teológicas que fundamentam a "identidade" ou a "semelhança" das passagens evangélicas. Ao nos convidar a um exercício de "arqueologia linguística e cultural" 1, a obra oferece um caminho para uma compreensão mais profunda das intenções originais dos autores, sem as sobreposições de interpretações posteriores. A presente análise, portanto, não teria sido possível sem a estrutura crítica fornecida por esta tradução, que cumpre seu objetivo de enriquecer o estudo bíblico com ferramentas diferenciadas e complementares.1

Referências citadas

  1. O Novo Testamento - Haroldo Dutra.pdf

Nenhum comentário:

Postar um comentário