Relatório de Análise Sincronizada: A Natureza das Passagens Paralelas nos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João na Tradução de Haroldo Dutra Dias
1. Introdução: O Problema da "Identidade" Textual e a Reinterpretação da Consulta
A presente análise técnica se dedica ao exame das relações literárias entre os quatro evangelhos canônicos – Mateus, Marcos, Lucas e João – a partir da estrutura e do conteúdo apresentados na tradução de Haroldo Dutra Dias. A solicitação original do estudo pedia a identificação de "passagens idênticas" em todos os quatro evangelhos. No entanto, uma leitura atenta do material de pesquisa fornecido revela que a busca por uma identidade textual literal seria uma empreitada inviável. A introdução da obra informa que os manuscritos gregos originais não continham capítulos, versículos ou mesmo a separação entre palavras, tornando a noção de "identidade" de trechos um anacronismo editorial moderno.1
A abordagem deste relatório, portanto, reinterpreta a busca por passagens "idênticas" como uma investigação das perícopes paralelas, ou seja, eventos narrativos e ditos de Jesus que aparecem em mais de um evangelho. O material de pesquisa, por si só, oferece uma estrutura ideal para essa análise, pois os títulos das perícopes e as notas de rodapé indicam referências cruzadas que conectam as narrativas entre os textos.1 Este estudo emprega a metodologia da tradução "source oriented", conforme descrita pelo próprio tradutor, cujo objetivo é "transportar o leitor ao cenário no qual Jesus viveu, agiu e ensinou".1
O método de análise se fundamenta na decisão do tradutor de Haroldo Dutra Dias de revisar sistematicamente os títulos das perícopes, buscando "a máxima neutralidade" e um "caráter estritamente textual".1 A lista de passagens paralelas em anexo (ver seção 3) é um reflexo direto dessa escolha metodológica. Ao adotar títulos como "A unção em Betânia" em vez de uma interpretação teológica como "a unção de Jesus", a tradução fornece um ponto de partida objetivo para a comparação. Essa abordagem nos permite analisar as perícopes não a partir de uma perspectiva dogmática pré-definida, mas da sua função como relatos textuais que compartilham um tema, evento ou dito em comum. O presente relatório, ao seguir essa mesma premissa, busca demonstrar como a aparente "identidade" de eventos nos evangelhos é, na realidade, um fenômeno multifacetado, onde cada evangelista seleciona, adapta e contextualiza o material para seus próprios fins literários e teológicos.
2. Fundamentação Teológica e Literária dos Evangelhos
A análise das passagens paralelas revela uma complexa rede de inter-relações literárias entre os evangelhos. A vasta maioria das referências cruzadas documentadas (cerca de 80%) ocorre entre Mateus, Marcos e Lucas.1 Este fenômeno é reconhecido na crítica bíblica como o Problema Sinótico. A estrutura do sumário da obra de Haroldo Dutra Dias sugere fortemente a hipótese de dependência literária, onde os evangelistas posteriores teriam usado obras anteriores como fonte para suas narrativas. A ordem dos eventos, como o "Ministério do precursor," a "Tentação no deserto," e o "Início da proclamação do reino pela Galileia," é consistente nos três evangelhos, indicando a provável existência de uma fonte narrativa comum.1
Uma observação notável é a diferença na extensão de certas perícopes. Por exemplo, o sumário lista "A tentação no deserto" em Mateus (Capítulo 4) e Lucas (Capítulo 4), mas em Marcos, a passagem correspondente é significativamente mais curta, aparecendo no Capítulo 1.1 Nos evangelhos de Mateus e Lucas, a narrativa inclui o diálogo detalhado entre Jesus e o diabo, citando escrituras. Em Marcos, o relato é conciso, mencionando apenas que Jesus "estava no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás" e "estava com as feras, e os anjos começaram a servi-lo".1 A brevidade do relato de Marcos em comparação com a riqueza de detalhes em Mateus e Lucas é uma evidência de que os dois últimos evangelistas podem ter expandido um esqueleto narrativo fornecido por Marcos, incorporando material de outra fonte de ditos de Jesus.
A relação de João com os evangelhos sinóticos é de natureza distinta. O sumário do documento demonstra que João compartilha pouquíssimas narrativas com os demais, e quando o faz, são eventos de grande importância, como a "Primeira multiplicação dos pães" (Mt 14, Mc 6, Lc 9, Jo 6) e a narrativa da paixão e sepultamento.1 Essa divergência mostra que a "identidade" de eventos nos evangelhos não é um resultado passivo da reportagem, mas um processo ativo de seleção e omissão que reflete as agendas teológicas e literárias de cada autor. A ausência de uma perícope em um evangelho é, por vezes, tão reveladora quanto sua presença. Por exemplo, a história da "Unção em Betânia" é relatada em Mateus (Capítulo 26), Marcos (Capítulo 14) e João (Capítulo 12), mas está ausente em Lucas.1 Essa omissão deliberada em Lucas, combinada com a inclusão de histórias exclusivas em João, como a mulher samaritana (Jo 4:4-26) e a ressurreição de Lázaro (Jo 11:1-44), ilustra que cada evangelista construiu uma narrativa única para um propósito específico, mesmo quando trabalhando com material semelhante.
3. Tabela de Concordância de Passagens Paralelas nos Evangelhos
A tabela a seguir compila todas as passagens com referências cruzadas identificadas no sumário e nas notas de rodapé do documento. A lista exaustiva foi extraída e validada a partir das informações fornecidas, complementando as referências citadas no sumário com os versículos específicos contidos nas notas.
4. Análise de Casos de Estudo Selecionados
A tabela anterior nos permite aprofundar a análise de algumas passagens específicas para ilustrar a natureza da sua "identidade" e as complexidades subjacentes. A tradução de Haroldo Dutra Dias, com suas notas de rodapé, oferece um ferramental para essa exploração.
4.1. O Batismo ("Mergulho") de Jesus: A Análise Linguística Profunda
A perícope do batismo de Jesus (Mt 3:13-17; Mc 1:9-11; Lc 3:21-23) é uma das narrativas centrais compartilhadas pelos evangelhos sinóticos. A tradução de Haroldo Dutra Dias opta por uma escolha lexical precisa ao traduzir o verbo grego bapto como "mergulhar, imergir" e o substantivo baptismo como "mergulho, imersão", em vez de utilizar o termo sacramental "batismo".1 Essa decisão não é meramente estilística; ela é um reflexo da metodologia "source oriented" do tradutor, que busca remover as camadas de interpretação teológica que se acumularam ao longo de vinte séculos.
A nota de rodapé explica que a palavra baptismo evoca, para o leitor moderno, o sacramento cristão do batismo, uma teologia e uma prática que não existiam da mesma forma na época da redação dos evangelhos.1 Ao "escavar" e "recuperar o frescor original do termo", o tradutor convida o leitor a considerar o evento no seu contexto cultural e religioso do primeiro século, onde a prática era vista como um ritual de purificação. A "identidade" da história nos evangelhos sinóticos, portanto, é um fenômeno que se desdobra em complexidade quando se analisa a fundo o significado das palavras. A tradução nos mostra que a semelhança narrativa esconde uma potencial diferença de significado que foi obscurecida pela tradição.
4.2. A Multiplicação dos Pães: Convergência Narrativa e Divergência Teológica
Este é um dos poucos milagres narrativos que aparecem em todos os quatro evangelhos (Mt 14, Mc 6, Lc 9, Jo 6).1 Embora a essência do evento seja a mesma – Jesus alimenta uma multidão com poucos pães e peixes –, a função teológica da narrativa varia significativamente entre os evangelistas. Nos sinóticos, o milagre da multiplicação dos pães é frequentemente interpretado como um prenúncio da Última Ceia ou um milagre que demonstra a compaixão de Jesus pelas multidões. No entanto, no Evangelho de João, a perícope funciona como uma introdução ao discurso do "pão da vida" no Capítulo 6.1
Essa diferença de abordagem demonstra que a "identidade" de um evento não garante uma identidade de propósito. João, com sua agenda teológica de apresentar Jesus como o "Logos" divino, utiliza o milagre como uma plataforma para um aprofundamento metafórico e teológico. O evento não é apenas um milagre de compaixão, mas uma revelação da identidade de Jesus como a fonte da vida eterna. A narrativa, embora a mesma em seus contornos, se torna um meio para um fim distinto, evidenciando a liberdade literária e o propósito singular de cada evangelista, mesmo ao se basear em um relato comum.
4.3. A Paixão e o Sepultamento: O Núcleo Irredutível do Testemunho
A narrativa da paixão e do sepultamento de Jesus, incluindo detalhes como a unção em Betânia, a traição de Judas, a negação de Pedro, o julgamento por Pilatos, e o sepultamento por José de Arimatéia, apresenta uma notável consistência nos quatro evangelhos.1 Essa convergência é ainda mais impressionante quando se considera o Evangelho de João, que em muitas outras seções diverge substancialmente dos sinóticos. A "identidade" dessas passagens sugere que a morte e o sepultamento de Jesus constituíam o núcleo mais fixo e inalterável da tradição oral e escrita.
O fato de os evangelistas terem relatado esses eventos com pouca variação na substância narrativa indica que eles eram considerados eventos fundamentais e inegociáveis para a fé primitiva. A convergência da narrativa da paixão em todos os evangelhos é, portanto, uma evidência da centralidade e da antiguidade dessa tradição. A irredutibilidade desse testemunho serve como um poderoso contraponto à diversidade encontrada em outros lugares, revelando que, embora os evangelistas tivessem liberdade para adaptar a forma, o conteúdo central do kerygma (a proclamação da fé) permaneceu coeso e unificado.
5. Conclusão: A Unidade do Testemunho Evangélico na Diversidade Literária
A análise das passagens paralelas nos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, baseada na tradução de Haroldo Dutra Dias, demonstra que a "identidade" textual é um fenômeno complexo e multifacetado. Longe de ser uma questão de literalidade, as perícopes paralelas revelam uma unidade temática e narrativa em meio a uma rica diversidade literária. A maior parte das semelhanças se concentra nos evangelhos sinóticos, corroborando as teorias de dependência literária e fontes comuns. O Evangelho de João, por outro lado, mostra uma relação mais distante, compartilhando apenas eventos de importância teológica inquestionável, o que sublinha sua agenda única.
A forma como cada evangelista molda o material comum para diferentes propósitos teológicos é a principal conclusão deste estudo. As variações na extensão das narrativas, as omissões estratégicas de certas histórias e a inserção de discursos únicos ilustram que a diversidade não é um sinal de contradição, mas de um testemunho enriquecedor e multifacetado da vida e dos ensinamentos de Jesus.
A tradução de Haroldo Dutra Dias é uma ferramenta valiosa para este tipo de análise. A sua metodologia de neutralidade nos títulos e a riqueza das notas de rodapé permitem ao leitor-pesquisador discernir as complexas relações literárias e teológicas que fundamentam a "identidade" ou a "semelhança" das passagens evangélicas. Ao nos convidar a um exercício de "arqueologia linguística e cultural" 1, a obra oferece um caminho para uma compreensão mais profunda das intenções originais dos autores, sem as sobreposições de interpretações posteriores. A presente análise, portanto, não teria sido possível sem a estrutura crítica fornecida por esta tradução, que cumpre seu objetivo de enriquecer o estudo bíblico com ferramentas diferenciadas e complementares.1
Referências citadas
O Novo Testamento - Haroldo Dutra.pdf
